Agora quatro horas trinta e oito
minutos e trinta e oito segundos do dia vinte e seis de setembro de dois mil e
dezessete. Estou aqui sentado em frente ao computador digitando os meus
sentimentos e aquilo que ainda está muito vivo em minha memória, para expressar
o que eu aqui chamo de vazio da perda de uma mãe. Prometi não chorar mas meus
olhos estão marejados pelas lágrimas. Quero aqui falar da Dna Ely da Lila ou
carinhosamente como nós chamávamos de Vó Li. Ontem nós, filhos, filhas, netos,
netas, bisneto, bisnetas, noras, genros, parentes, amigos, amigas e conhecidos
em geral, conduzimos ela para a sua, digamos assim última morada aqui nesta
terra.
A
dor desta despedida é indescritível, só para quem passa é que sabe o quanto ela
é marcante. Muito bem, quero falar:
MINHA
MÃE E MEUS IRMÃOS SÃO OS QUE OUVEM A PALAVRA DE DEUS E A PÕEM EM PRÁTICA Lc 8,21
A
experiência de vida do idoso é um livro de sabedoria – Beth Guedes
Vou
chama-la aqui de Dna Lila, vou relatar aquilo que neste momento, estou sentindo e estou lembrando, tenho quase a
certeza de que as minhas irmãs são consoantes com o que vou aqui
registrar. Foram 89 anos, 2 meses e 14 dias
que a Sra ficou aqui no mundo terreno e eu só tenho a agradecer a Sra por ter me trazido ao
mundo e ter me dado a oportunidade de ser um de seus filhos. Quanta coisa me ensinou, quanto mistério da
sua vida guardou para si, e isso eu sei. Nunca vi a Sra levantar a voz, mesmo
quando tinha vontade de fazer isso, me chamava de FILHÃO, vejam só se eu merecia
isso, é só o coração gigante de uma mãe para chamar a gente assim. Nunca vi a
Sra se queixar de nada, mesmo descobrindo que teve uma infância digamos assim,
quase que macabra, pois logo aos três anos de vida perdeu sua mãe, imaginem
vocês se criarem sem mãe, e aqui relato que isso sempre foi um mistério para nós,
um buraco negro. Jamais encenou para nós em momento algum este lado de não ter
tido uma mãe, e foi sempre a MAEZONA ELI, não entendo isso, nunca teve mãe e
foi uma mãe fantástica para nós quatro
filhos que trouxe ao mundo, e com muito sacrifício, dedicação, amor, carinho,
entrega nos criou. Foi muito pouco a
escola, e tinha um caligrafia de dar inveja a qualquer um, como pode isso? Quando
eu lia as receitas que escrevia em folhas soltas de caderno, que letra meu
Deus. A Sra nunca foi dormir antes que eu chegasse da
faculdade, sempre me dizia VADINHO ou simplesmente DINHO como ela
carinhosamente me chamava; deixei comida para você lá na cozinha, não vá dormir
sem se alimentar. Lembro um dia quando ainda garotinho e meu pai me levou no
hospital para visita-la, aliás aqui um parêntese, perdi as contas de quantas vezes
a minha mãe ficou hospitalizada; aí ela me olhou e viu que eu estava mal vestido, pois
tivemos uma infância pobre, mas nos orgulhamos disso e dos nosso pais; ela simplesmente virou o rosto para o lado, começou a chorar e hoje eu estou aqui chorando por entender o quanto naquele
momento ela estava sofrendo por não estar em casa cuidado de mim, me vestindo,
me agasalhando, me alimentando, como sempre ela fez, mesmo tendo pouquíssimas
condições para isso. A vida foi passando e ela sarou, e pudemos ter uma vida mesmo
com dificuldades, mas muito feliz, sim
naquele tempo pouca coisa nos fazia feliz. Ela nos ensinou a sermos unidos, a
repartir sempre, ela nunca ficou sentada a mesa, quando eu já era adulto e chegava
em sua casa para visita-la, ia logo levantando e oferecendo algo para mim comer,
mesmo agora nos seus últimos dias de vida, sempre dizia, abra o armário, abra a
geladeira e lá tem coisas para vocês comerem, que coisa fantástica, quando
vamos ouvir isso agora, NUNCA MAIS Tenho que parar de escrever, estou chorando,
não é feio chorar, e eu que tinha prometido para mim mesmo para não chorar, mas
não tem como. Sai lá fora da minha casa, o dia ainda não amanheceu, o céu está
muito escuro, mas sei que ele está em festa, pois a Sra agora está lá, é
certeza disso, ouço um sabiá cantar, procuro entender como ele tão indefeso, tão
frágil e não deixa de cantar, foi Deus que criou os pássaros e as mães, isso
eu não tenho dúvida nenhuma. Volto e continuo a escrever tentando aqui
remexer o baú das lembranças, sim lembrei; no dia do meu aniversário ela sempre
me dava como presente um bolo de bolacha, aliás minha mãe era uma exímia
cozinheira e mágica também, pois as grandes dificuldades que tivemos na vida, mesmo assim ela conseguia produzir alimentos
saborosíssimos, não consigo entender até hoje como fazia isso. Minha mãe me
ensinou a repartir, sim repartir, como dizia meu falecido e querido pai, hoje isso é MANGA DE COLETE, ela me ensinou a praticar o
verbo PARTILHAR, é só a minha mãe tão simples, tão humilde, tão sofrida na
infância, me ensinar uma sabedoria dos deuses, das pessoas que realmente passam
pela terra e deixam marcas profundas de sabedoria. Passamos muitíssimos momentos
felizes com ela, ela tocava gaitinha de boca, fecho os olhos e vejo isso agora,
continuo sem entender como aprendeu isso, tentava me ensinar pelo menos a
música PARABÉNS A VOCÊ e eu não consegui
aprender, pois eu tenho facilidade para tocar percussão. Lembro que uma época
eu ainda morava com meus pais, fui tocar em uma banda no carnaval, e o desgaste
foi tanto e quando cheguei em casa desmaiei, minha mãe me encontrou caído e me
levantou me recuperando com um assopro bem forte no rosto, coisas de mãe. Mais
ou menos dez anos atrás minha mãe adoeceu novamente, minhas irmãs, a essas
queridas e amadas minhas irmãs, que eu seria nesta vida sem o carinho delas,
vejam só, eu era o único homem entre os quatro filhos que minha mãe trouxe ao
mundo, que privilégio minha gente; elas cuidaram da minha mãe como se fosse um
passarinho, pois ela ficou muito debilitada, mas recuperaram ela, vida que
segue. Os anos se passaram, e ela já com oitenta e poucos anos, adoeceu
novamente, e agora para não sarar mais, minhas irmãs cuidaram dela em todos os
aspectos, ela ingeria muitos remédios, eu era, digamos assim a pessoa que
cuidava da logística do grupo, uma irmã
cuidava da alimentação, outra da higiene, outra das finanças, e assim nós
quatro cuidávamos dela, meu pai e a minha mãe nos ensinaram a HISTÓRIA DO FEIXE
DE VARAS, a união faz a força. Perdi as contas as dezenas de vezes que levei
ela aos médicos fora de nossa cidade, ela tinha pavor de viajar e é claro, de
médicos e no final da sua vida precisou tanto deles, e como ela foi bem
tratada por todos os profissionais da saúde, pessoas essas, abençoadas por
Deus. Trazendo a história para os dias atuais, minha mãe foi adoecendo cada vez
mais, já com oitenta e oito anos, notávamos que mesmo com um esforço terrível
não conseguia se locomover corretamente, tomava muitos medicamentos como já
relatei, e isso era uma pauleira para minha irmã, minha mãe com a doença que
acometeu, começou a perder a vontade de viver. Seis meses atrás perdeu o seu
esposo, ai a coisa degringolou, mesmo sem expressar verbalmente os seus sentimentos, nós percebíamos que a perda do seu companheiro afetou muito a sua saúde, não se alimentava direito,
não caminhava, ficou na cama, mesmo assim fizemos tudo o que pudemos para
recuperar aquele corpo e sabíamos que não iriamos conseguir. Oitenta e nove anos de luta, não é qualquer máquina que
aguenta, mesmo assim olhávamos em seus olhinhos, os quais fitavam o infinito,
que ela queria continuar vivendo. Quando internamos ela pela última vez, já
dávamos apenas gotas de água em uma seringa, seu cérebro não comandava mais nem
para engolir a água. Minha querida mãe enfim você partiu, foi para uma outra
dimensão, foi para a vida eterna. Você foi um ícone para nós, minha esposa
falou que quando ela também perdeu sua mãe, a Sra que passou a ser a mãe dela,
que coisa maravilhosa isso, a Sra foi a mãe de todos nós, isso nunca nós iremos
esquecer, eu tive a felicidade de poucos, em poder ter meu pai até os noventa e
um anos e minha mãe até os oitenta e nove, seria muito egoísmo da minha parte
querer que vocês vivessem mais, e por outro lado as enfermidade que acometeram
vocês, não poderíamos exigir mais. Quero falar das pessoas que tiveram junto
com nós nos últimos momentos de vida da minha mãe bem como todos os que lá
estiveram no dia no seu guardamento, aqueles que mandaram mensagens pelo
celular, os meus filhos que não mediram esforços, mesmo morando a milhares de
quilômetros, vieram para dar o último adeus a vó Li. Quantos abraços, quantas
palavras de conforto, quanta gente presente, não sabia que minha mãe e que nossa
família era tão querida. Isso nos conforta, isso nos dá esperança de que o
mundo pode e deve ser mais fraterno, mais humano, que não devemos nos
envergonhar de nada, que devemos chorar, jamais encontrarei palavras para
agradecer tudo isso, vocês todos foram demais. Sou cônscio de que aquelas pessoas que ali estiveram era por nossa família, mas principalmente pela minha mãe, ela era naquele momento o centro
das atenções por tudo que representou por tudo que semeou nesta terra, isso nós
vamos reconhecer sempre, vamos ser sempre gratos. Dizia uma senhora ao me abraçar
na hora em que levávamos minha mãe, para sua última morada, ESSA HORA DA
DESPEDIDA FINAL DE CORPO PRESENTE É UMA DOR INDESCRITÍVEL A QUAL TODOS, SEM
EXCEÇÃO TEREMOS QUE UM DIA PASSAR. Finalizando, precisamos acreditar, temos
que acreditar e acreditamos, do pó viestes e ao pó voltarás, início, meio e
fim, não morremos e sim iremos para a vida eterna com o CRIADOR. Descanse em paz
minha querida mãe, você agora não faz mais parte do nosso convívio material,
vou te amar sempre, procurarei seguir cada vez os seus passos e ensinar aos
meus filhos os seus ensinamentos e seus exemplos. São seis horas e dezesseis minutos do dia
vinte e seis de setembro de dois mil e dezessete, o dia já está amanhecendo,
vida que segue, continuo chorando...
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